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Blog Divulgação Científica
por Cecile Mendonça


Cecile Mendonça é carioca, mas já morou em Salvador, Fortaleza e agora foi parar em Niterói. É graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Leitora ávida. Ama escrever. Curiosa. Escalafobética.






Mulheres obesas obtiveram quadro de melhora na saúde sem precisar de dieta ou perder peso, segundo pesquisa da USP
Por: Cecile Mendonça em 05/10/2018

Estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP baseia-se na perspectiva de referenciais teóricos que falam que pessoas obesas podem ter saúde independente do seu peso corporal. Assim, propuseram atividades físicas prazerosas e focaram na reeducação dos hábitos alimentares para melhora na saúde de pessoas obesas.


Provavelmente, você clicou aqui porque ficou curioso e se perguntou “Como isso é possível?”. Esse tipo de questionamento teria sido facilmente evitado se a gordofobia não estivesse tão presente em nossa sociedade.

A verdade é que o real peso de se estar acima do peso é saber lidar com os quilos extras que geram tanta vergonha do corpo numa sociedade que, além de pregar padrões de beleza, insistem em definir qual é o “corpo saudável”. Contudo, já existem muitas pessoas estudando e trabalhando para mudar isso, como fizeram os alunos dedicados a essa pesquisa.

As intervenções realizadas normalmente para o cuidado da obesidade relacionam a saúde do paciente com a perda de peso. Então, são propostas dietas e atividades físicas extenuantes. Entretanto, um estudo realizado na Faculdade de Saúde Pública da USP demonstrou que a perda de peso não é um fator determinante para obter mais capacidade física, proteção cardiovascular e qualidade de vida.

Os pesquisadores reuniram e acompanharam 58 mulheres obesas por 7 meses, incentivando-as a praticar atividades físicas, como a luta e a dança, por serem mais divertidas e prazerosas, e, além disso, não foram prescritas dietas. As mulheres que participaram da pesquisa não demonstraram redução de peso. E o que poderia ser um fator crucial para desmotivá-las, não as impediu de se tornarem mais ativas.

Segundo a nutricionista Mariana Dimitrov Ulian, primeira autora do artigo, o problema das atitudes tradicionais dos médicos e nutricionistas é que elas trazem uma certa pressão de culto ao corpo, o que não leva a resultados sustentáveis, trazendo insatisfação corporal constante, podendo até mesmo gerar prejuízos à saúde, como depressão e diversos transtornos alimentares.

Mariana Dimitrov e seus colegas utilizaram como base de estudo a abordagem “HAES-Health at Every Size” (“saúde em todos os tamanhos”) que tem como prioridade a saúde, o bem-estar físico e psicológico, independentemente do peso. Formulada nos Estados Unidos, a teoria gera um movimento de aceitação da gordura corporal, sendo promovida pela “Association for Size Diversity and Health”, uma organização sem fins lucrativos isenta de impostos que possui a frase como uma marca registrada.

As voluntárias selecionadas para o estudo na Faculdade de Saúde Pública eram sedentárias, adultas entre 25 e 50 anos e o índice de massa corporal (IMC) delas era entre 30 e 39,9. Para participar, não poderia ser gestante ou nutriz; ter diabetes, doença coronária ou renal, nem usar remédios para emagrecimento, diuréticos ou supressores de apetite. Além disso, não era permitido fazer acompanhamento nutricional fora da intervenção proposta pelo estudo.

As 58 mulheres escolhidas foram divididas em dois grupos: o grupo intervenção e o grupo controle.

Os pesquisadores propuseram ao grupo intervenção cuidados semelhantes ao sugerido pelo HAES, porém com um programa de atividades mais intenso. As mulheres deste grupo passaram por aconselhamento nutricional e atividades físicas que as davam prazer, como dança e luta. Elas participaram de uma série de 5 oficinas filosóficas conduzidas por um professor de filosofia e educação física, que levou temas, como o desejo e a moralização da saúde, para debater com as participantes.

A intervenção, além de não prescrever dieta, não contou com nenhum tipo de restrição calórica. Em vez disso, foi estimulado a planejar a alimentação, listando o que comer e cozinhando, além de comer com base nos sinais de fome. Muitas diziam que não planejavam as refeições do dia-a-dia, não levavam listas ao mercado e não gostavam de cozinhar. Características que foram mudando durante o processo.

Quanto ao grupo controle, participou de um ciclo de palestras. “A gente achou que não seria ético prescrever uma dieta a esse grupo, já que todo o nosso referencial teórico abordava os efeitos negativos das dietas. Então, a gente optou por fazer um grupo controle que também seguiria os princípios da abordagem HAES, mas seguindo os modelos das intervenções que a gente vê por aí, que são basicamente encontros em grupo com uma frequência definida, seja mensal ou bimensal”, explicou a nutricionista Mariana.

No início, os pesquisadores coletaram uma variedade de dados quantitativos, como peso, altura, circunferência da cintura e do quadril das mulheres dos dois grupos. As voluntárias passaram por avaliações de condicionamento aeróbico, nível de atividade física e função muscular. Elas responderam sobre seu consumo alimentar e a um questionário que buscava avaliar seus parâmetros de percepção de qualidade de vida e sobre imagem corporal. Assim, por meio de entrevistas, foi possível coletar dados quantitativos e qualitativos sobre as experiências dessas mulheres.

Esses dados foram comparados com as novas medições ao final da intervenção. Desse modo, foi observado que não houveram mudanças significativas a respeito do peso, IMC ou circunferência da cintura e do quadril. Porém, os outros dados apresentaram diferenças significativas. Houve um saldo positivo em ganho de qualidade de vida, melhoras na capacidade aeróbica e na função muscular; foi diminuído o consumo de alimentos ultraprocessados, aumentaram o consumo de frutas, vegetais e relataram se sentirem mais engajadas em atividades físicas fora da intervenção. Elas também adquiriram mais consciência quanto ao “comer emocional”, conseguindo identificar os sinais de saciedade.

Segundo a nutricionista, o incentivo para cozinhar e possuir experiências culinárias se mostrou uma ação essencial na mudança alimentar dessas mulheres. “Aumentou o interesse delas por comidas frescas, feitas em casa. Quem no começo relatou não gostar de cozinhar, no final da intervenção relatou que estava motivada com isso, que não demandava tanto tempo assim como elas imaginavam e era um jeito interessante delas diversificarem ingredientes e temperos”, contou a pesquisadora.

Embora os resultados positivos tenham aparecido tanto no grupo intervenção quanto no grupo controle, as mudanças foram muito mais expressivas entre as mulheres do grupo intervenção. Pois, essas mulheres também tiveram grandes melhoras na percepção de imagem corporal. “No começo da intervenção, era muito comum o peso corporal ter uma importância muito grande. Isso influenciava o valor que elas davam para si. Elas deixavam de fazer coisas, paravam de fazer atividades pelas quais se interessavam, não iam a eventos sociais, por exemplo”, afirmou Mariana. “E aí, no final da intervenção elas destacaram ganhos que foram além do que a gente imaginava. Desde voltar a dirigir a retomar um curso que parou de fazer porque tinha vergonha”, completa, destacando que ao estarem bem consigo mesmas, é possível desencadear uma série de projetos pessoais.

Pesquisas como essas são de extrema importância para desmistificar conceitos criados pela gordofobia e, enfim, conscientizar a população de que: ser gordo não é sinônimo de estar doente.











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