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Blog Psicanalista Político
por Filipe dos Santos


Filipe dos Santos é professor de História e estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense.






Bolsonaro: neoliberal em pele de fascista?
Por: Filipe dos Santos em 27/12/2018

Não é por acaso que Jair Bolsonaro vem sendo rotulado como fascista em diversas oportunidades. Identificamos em seu discurso características comuns ao que o mundo entendeu por fascismo: o militarismo, o anti-comunismo paranoico, o ufanismo, o desprezo pelas regras do jogo democrático, o ataque a grupos sociais específicos entendidos equivocadamente como inimigos de uma nação, o moralismo rasteiro, o personalismo, a visão autoritária sobre as artes, a truculência como resposta aos problemas sociais (reais ou criados), o ódio à diversidade e à esquerda.

Contudo, na penosa tarefa de entendermos o que será o governo Bolsonaro (o que é diferente de entendermos o que é Bolsonaro), caracterizá-lo somente como fascista parece não ser suficiente. A influência do conservadorismo evangélico, por exemplo, também tem sido decisiva no bolsonarismo, que já não pode ser explicado sem levarmos em conta esta dimensão.

Há, ainda, um conceito sem o qual dificilmente entenderemos do que se trata este novo fenômeno da política brasileira - trata-se do neoliberalismo. Esta é uma abordagem fundamental: embora Bolsonaro possa ser entendido facilmente como fascista, o seu governo, entretanto, pode vir a ser mais neoliberal do que propriamente fascista.

A julgar pelas últimas ações e declarações daqueles que integram a recém-formada equipe do governo, é perfeitamente plausível enxergarmos uma administração que se notabilize pelo aprofundamento da desregulamentação das relações de trabalho, pelo ataque ao sistema público de aposentadoria e pelas apostas nas privatizações, na desregulamentação financeira, na abertura do mercado e no corte de gastos sociais. Em outras palavras, uma gestão neoliberal, de crença desmedida na capacidade do mercado de melhorar o bem estar da sociedade. Talvez a essa altura, seja mais factível imaginar essa face de Bolsonaro traduzindo-se em política de Estado do que o seu horror fascista promete - dentre outros absurdos, “fuzilar a petralhada”, muito embora, evidentemente, toda atenção seja necessária para que projetos desse porte não sejam implementados – “a cadela do fascismo está sempre no cio”, nos lembra Bertold Brecht.

Cabe ressaltar que governos neoliberais, em muitos momentos da História, apresentam aspectos agressivos, autoritários e ultraconservadores. Apesar de os expoentes do neoliberalismo comumente discursarem em defesa da liberdade, não raras vezes esta liberdade está restrita ao mercado.

Vejamos o caso do governo de Margareth Thatcher, referência maior do neoliberalismo. Ao mesmo tempo em que tentava retirar o Estado da economia apelando à ideia de liberdade, aprovou a injusta Seção 28, que retirava das escolas as discussões sobre sexualidade, por entender que tais discussões estimulavam a homossexualidade em detrimento de valores tradicionais (a propósito, ideia parecidíssima com certo pensamento que estimulou a absurda polêmica do “kit gay”); em 1987, se uniu a outros dois governos neoliberais, Cavaco Silva (Portugal) e Ronald Reagan (Estados Unidos), para serem os únicos a votarem contra uma resolução da ONU que exigia a liberdade imediata de Mandela (129 países votaram a favor); afundou o cruzador General Belgrano injustificadamente na Guerra das Malvinas, o que levou a morte de mais de 300 marinheiros argentinos; dentre outras ações truculentas.

Dadas as idas e vindas do presidente eleito, tal como a nebulosidade verificada em seu pensamento político, social e econômico, só teremos clareza do que será o governo de Bolsonaro quando ele, de fato, começar. Contudo, percebemos que o neoliberalismo historicamente não exclui o autoritarismo – ao contrário, para muitos, é justamente através da truculência que as medidas impopulares neoliberais têm mais chances de serem implementadas. No caso de Bolsonaro, o seu discurso violento e moralista pode continuar sendo compreendido como fascista. Mas pode, ainda, ser entendido como parte da versão mais indecente do neoliberalismo, que produz simultaneamente aberrações autoritárias e enfraquecimento do Estado social, enquanto deposita em um mercado desregulado a esperança de felicidade de uma população. A conferir – e, claro, resistir.









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