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Blog Psicanalista Político
por Felipe Pena


Felipe Pena é jornalista, psicólogo, roteirista e professor da UFF.

Doutor em literatura pela PUC, com pós-doutorado em semiologia pela Sorbonne, é autor de 15 livros e diretor do documentário "Se essa Vila não fosse minha". Visiting Scholar na New York University.

Foi sub-reitor da Universidade Estácio de Sá entre 1999 e 2004 e comentarista do Estúdio I, na Globonews, entre 2013 e 2015.

Escreve semanalmente no Jornal Extra.






Professor Tarcísio Motta: "vivemos tempos sem esperança"
Por: Felipe Pena em 28/06/2017

Almoço de família. Pergunto aos parentes que vestiram a camisa da CBF e seguiram o pato amarelo pela Av. Atlântica contra Dilma por que não fazem o mesmo contra Temer. Argumento que, desta vez, as provas são incontestáveis. Há gravações, documentos, malas de dinheiro e até uma confissão feita em rede nacional. A resposta é seca, recheada de hipocrisia: "pelo bem da economia é melhor o Temer ficar".

Nosso zeitgeist, o espírito do tempo, é o da indignação seletiva. As manifestações pela saída de Dilma nunca foram contra a corrupção. Meus parentes só confirmam o que já sabíamos: eles foram às ruas por misoginia, ódio de classe e ignorância histórica.

Ligo para a Câmara dos Vereadores do Rio. Quero falar com Tarcísio Motta. Não é o vereador que me atende, é o historiador. Procuro uma explicação para tanta hipocrisia. Ele faz uma comparação com 1992. "No 'Fora Collor', testemunhamos uma manifestação de esperança. O 'Fora Dilma' foi marcado pelo ódio. No 'Fora Temer', o ódio venceu a esperança e as pessoas não enxergam horizontes, não enxergam opções de mudança de rumo".

Concordo com ele. Afinal, como confiar em eleições indiretas com esse congresso? Ainda assim, não entendo a opção pela hipocrisia feita por alguns de meus familiares.

O professor Tarcísio me explica que, para boa parte da classe média, a dimensão simbólica do 'Fora Temer' é o retorno de Lula. Isso assusta a pequena burguesia que foi ensinada a odiar o sapo barbudo e suas políticas de inclusão. "Em 1964, a marcha da família com Deus pela propriedade tinha o claro objetivo de evitar as reformas de base propostas por Jango. Em 2016, marcharam sob o pretexto de combate à corrupção, mas já havia a consolidação de um discurso generalista contra a esquerda" – diz Tarcísio.

Lembro-me do conceito de "narcisismo das pequenas diferenças", explorado por Sigmund Freud nos textos Psicologia de grupo (1921) e Mal-estar na Civilização (1930). Para Freud, a civilização, sob o império da lei, é a responsável pela inibição da agressividade humana, que é uma expressão narcísica do ego. No entanto, tal narcisismo agressivo rompe a barreira do recalque e se manifesta publicamente quando incentivado por líderes que se supõem acima da lei (e, portanto, da civilização) ou quando avalizados por um grupo que recorre a pequenas diferenças em relação ao outro para justificar a barbárie.

Jair Bolsonaro e João Dória surgem como exemplos. O primeiro pode ser o líder catalisador que libera a agressividade contida pela civilização. O segundo, ao se posicionar como opositor das políticas de inclusão social, garante as pequenas diferenças que suportam o narcisismo da classe média de camisa amarela. Se o filho da empregada frequenta o mesmo ambiente que o patrão e voa nos mesmos aviões, qual é a vantagem de ser patrão? O grupo (classe média) quer manter as pequenas diferenças. Se elas estão ameaçadas, a barbárie é justificável. Esta é sua lógica narcísica. Dória e Bolsonaro são faces da mesma moeda.

Pergunto ao professor Tarcísio sobre os aloprados que pedem a volta do regime militar. Ele me tranquiliza. "A nova elite militar pensa fora do contexto da guerra fria. Não há comunismo a combater. Tampouco há um exemplo próximo como o da revolução cubana de 1959.."

Mas e o Gabinete de Segurança Institucional, professor? Ele é comandado por um general.

"Pois é, o Temer tem o ETCHEGOYEN " – responde Tarcísio.

No momento em que escrevo, policiais federais fazem uma varredura nos gabinetes do Supremo Tribunal Federal. Há suspeitas de que o GSI, a mando do presidente, espionou os ministros da Corte. Duvido que as Forças Armadas concordem com essa interferência. Acabo de sair de um curso para jornalistas em áreas de conflito que foi conduzido por militares. Aprendi que a lógica na caserna é outra. Ali estão profissionais preocupados com um projeto de nação, e isso não inclui atos fora da lei.

Temer pode até desejar a interferência militar, mas não será atendido. O inquilino do Planalto tem a estatura moral de um protozoário. Ao desqualificar a Procuradoria Geral da República, ele faz o jogo mesquinho das ilações que finge condenar.

A lata de lixo da história será o destino da quadrilha do presidente. Temer sabe que a materialidade das provas é incontestável e parte para o ataque. Não pode vencer no campo jurídico, mas joga com o corporativismo político, já que um terço da Câmara está sob investigação no STF. Por coincidência, é exatamente o terço de que ele precisa para barrar as denúncias da PGR.

Nas entrelinhas dos discursos de ontem e de hoje, entre as mãos que se esfregavam sem parar, estava o recado para os deputados: "me protejam que eu protejo vocês".

É a suruba do Jucá colocada em prática.

Enquanto isso, permanecemos reféns da hipocrisia familiar, do ódio de classe e do narcisismo das pequenas diferenças.

Não sei o que dizer aos meus parentes, professor Tarcisio. Não estão surdos, simplesmente não querem ouvir. Não estão cegos, simplesmente não querem ver. Que tempos estranhos, professor.

"São tempos sem esperança, Felipe. Tempos sem esperança"

* Felipe Pena é jornalista, professor associado da UFF e psicanalista. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado em Semiologia da Imagem pela Sorbone II, é autor de 15 livros, entre eles o ensaio "No jornalismo não há fibrose", finalista do prêmio Jabuti.









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