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Blog Psicanalista Político
por Felipe Pena


Felipe Pena é jornalista, psicólogo, roteirista e professor da UFF.

Doutor em literatura pela PUC, com pós-doutorado em semiologia pela Sorbonne, é autor de 15 livros e diretor do documentário "Se essa Vila não fosse minha". Visiting Scholar na New York University.

Foi sub-reitor da Universidade Estácio de Sá entre 1999 e 2004 e comentarista do Estúdio I, na Globonews, entre 2013 e 2015.

Escreve semanalmente no Jornal Extra.






Um ano atrás: o fascismo de Bolsonaro. Uma semana à frente: o fascismo de Marine Le Pen
Por: Felipe Pena em 17/04/2017

Ontem, Michel Temer confessou que houve um golpe parlamentar no Brasil. Em entrevista à TV Bandeirantes, o presidente (?) disse, ipsis litteris, que o ex-speaker Eduardo Cunha, cuja a atual moradia é um presídio em Curitiba, abriu o processo de impeachment para se vingar de Dilma e do PT, que se recusaram a votar a favor dele no conselho de ética da Câmara.

Pela lei brasileira, tal atitude configura um vício de origem no processo, o que já seria motivo suficiente para anular o impeachment. E nem vou mencionar a inexistência do crime de responsabilidade de Dilma, o acordo do senador Romero Jucá com a suprema corte ou a quadrilha que conspirou para tomar o poder, quase toda formada por acusados de corrupção pelo ministério público.

Foi golpe. E até os que o apoiaram sabem disso.

Hoje, faz um ano que o país testemunhou a vergonhosa votação na Câmara. Entre votos pela família, em nome de Deus e pelos valores conservadores, quase nenhum deputado mencionou os motivos do impeachment. E um deles foi além: em seu voto, o deputado Jair Bolsonaro homenageou o coronel Ustra, um conhecido torturador da ditadura militar.

Há exatamente um ano, Bolsonaro cometeu o crime de apologia à tortura. Mas tal crime não foi a única prática de cunho fascista em seu currículo, que é inspirado em alguns políticos europeus de extrema-direita, entre eles a eurodeputada francesa Marine Le Pen.

No domingo, haverá eleições presidenciais na França. Por isso, é o momento de enumerar algumas semelhanças entre Bolsonaro e Marine, além de ressaltar as ideias fascistas utilizadas por ela para tentar chegar ao poder. Como o objetivo de Bolsonaro também é ser presidente, espero que o texto sirva de alerta para os brasileiros.

Pra começar, Bolsonaro e Marine têm ligações familiares com a política. Ele é pai de três políticos e ela é filha do ex-líder da Frente Nacional, além de ter uma sobrinha enveredando pelo mesmo caminho.

Ambos fazem discursos contra minorias, são xenófobos, defendem um nacionalismo militarista e são saudosistas de tempos autoritários. Suas "gafes" são meticulosamente planejadas para ter espaço na mídia, o crescimento político ocorreu após governos de esquerda e nenhum deles conhece a realidade das comunidades mais pobres em seus países.

Como deputados, nunca tiveram qualquer projeto importante aprovado. Apenas vivem às custas do Estado, difundindo o discurso de ódio pelo parlamento. Tampouco têm qualquer experiência administrativa ou executiva. E, para coroar a farsa, ambos se apresentam como outsiders, aproveitando a sucessão de escândalos de corrupção e o naufrágio da economia em seus países para se venderem como não políticos, embora estejam há muito tempo na política.

As origens fascistas de Marine são claras:

Seu partido, a Frente Nacional, nasceu de uma organização chamada New Order, que é dominada por neonazistas.

A "mitologia" nazista é difundida pelo grupo através de uma pseudo-academia chamada GUD, grupo de união da defesa.

Nos primórdios da Frente Nacional, em 1972, os cartazes eram inspirados no partido neofascista italiano, o MSI. O verde da bandeira italiana foi substituído pelo azul francês, sem grandes mudanças gráficas.

Entre os fundadores do partido estão Pierre Bousquet e Jean Castrillo, ambos integrantes da SS Charlemagne, uma divisão da polícia de Hitler na França. A supremacia branca e as ideias antissemitas ainda fazem parte do núcleo duro da FN.

Não é difícil perceber a influência dessas ideias no projeto de isolacionismo da França defendido por Marine, o que fica materializado no desejo de sair da União Europeia e impedir a entrada de refugiados no país, além de limitar os direitos dos estrangeiros que vivem no seu território. Marine não quer construir um muro, como fez Trump, mas pretende construir milhares de torres de vigilância nas fronteiras. Basta olhar o compromisso 97 de sua candidatura.

Entretanto, o compromisso que mais assusta é o de número 2, que se refere aos artigos 11 e 89 da constituição francesa, permitindo que, na prática, Marine Le Pen dê um golpe parlamentar na França.

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Marine tem 144 compromissos de campanha. Nenhum deles se refere aos direitos humanos e liberdades fundamentais. Bolsonaro não tem compromissos de campanha, mas já sabemos o que pensa dos direitos humanos. Além disso, ambos têm seguidores violentos dispostos a praticar qualquer barbárie por seu líder.

As atitudes violentas e o fanatismo dos seguidores de Bolsonaro e Marine Le Pen não são um fato isolado. Devem ser estudados como um fenômeno complexo, de expressão contemporânea, mas com raízes muito mais antigas.

Talvez possamos recorrer ao conceito de "narcisismo das pequenas diferenças", explorado por Sigmund Freud nos textos Psicologia de grupo (1921) e Mal-estar na Civilização (1930). Para Freud, a civilização, sob o império da lei, é a responsável pela inibição da agressividade humana, que é uma expressão narcísica do ego. No entanto, tal narcisismo agressivo rompe a barreira do recalque e se manifesta publicamente quando incentivado por líderes que se supõem acima da lei (e, portanto, da civilização) ou quando avalizados por um grupo que recorre a pequenas diferenças em relação ao outro para justificar a barbárie.

Os seguidores de Bolsonaro e Marine se encaixam em ambos os casos. Seguem o líder, a quem chamam de mito, e dão vazão aos recalques narcísicos atacando as diferenças de grupos que elegem como rivais. Daí a constante referência agressiva a homossexuais, negros e feministas. Em muitos casos, tal referência esconde algo ainda mais profundo: um desejo reprimido de ser o outro. Por isso, considero muito provável a hipótese de o deputado Bolsonaro usar a violência contra grupos LGBT como forma de reprimir seu próprio desejo homossexual.

Quando alguns críticos consideram a palavra nazista exagerada para definir um seguidor de Marine Le Pen ou de Bolsonaro, sempre pergunto se as características citadas por Freud nos parágrafos acima não estavam presentes também na Alemanha da década de 1930. Da mesma forma, recorro a algumas condições históricas, como crise econômica, desgaste da esquerda, falta de representatividade política e a busca por um salvador da pátria.

Não estaria sendo pavimentado o caminho para um totalitarismo nazifascista na França e no Brasil?

Ou vocês ainda acham que é exagero?









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