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Blog Resenhas Literárias
por Felipe Pena


Felipe Pena é jornalista, psicólogo, roteirista e professor da UFF.

Doutor em literatura pela PUC, com pós-doutorado em semiologia pela Sorbonne, é autor de 15 livros e diretor do documentário "Se essa Vila não fosse minha". Visiting Scholar na New York University.

Foi sub-reitor da Universidade Estácio de Sá entre 1999 e 2004 e comentarista do Estúdio I, na Globonews, entre 2013 e 2015.

Escreve semanalmente no Jornal Extra.






Livro: O pai da menina morta - Autor: Tiago Ferro
Por: Felipe Pena em 30/05/2018

A filha do escritor Tiago Ferro tinha oito anos. Ela morreu em 2016, o ano que ainda vai demorar muito pra terminar. O pai já passou dos quarenta. O pai escreve sobre a ausência. O pai tem um calo ósseo na clavícula esquerda. O pai da menina morta não quer ser conhecido como o pai da menina morta.

E esse é o titulo de seu livro.

É o título de uma narrativa sobre o cotidiano. Não é a perda que nos destrói, é a trivialidade do que vem depois. O segundo suspiro sempre perde a relevância. Há tanto a resolver. O desemprego, a falta de moradia, o preço do alface. Onde foi parar o alface?

Leio o livro de Tiago na sala de espera do cardiologista. O enfermeiro cola eletrodos no meu peito recém-raspado. "O exame demora 20 minutos, professor Felipe. Qualquer desconforto, aperte o botão vermelho da máquina. Há dois pacientes na sua frente. É só aguardar."

Eu aguardo. Também passei dos quarenta. Não tenho filhos. Mas quero seguir o conselho do livro: "sempre falo para a Minha Filha lamber os avós porque eles não vão durar para sempre."

Os avós da filha que não tenho estão a quilômetros de distância. Sempre levo flores de plástico para a minha mãe em datas festivas. Elas não morrem, eu digo. E meu pai abre o mesmo sorriso irônico diante do clichê repetido. Se eu sair desse hospital, vou lamber os dois toda vez que encontrá-los.

O pai da filha de Tiago lambe a cria em cada página. Não é um livro sobre a morte. Talvez seja sobre a impotência. Ou o contrário. Papai? Eu não consigo amarrar o tênis. Cortar o bife. Abrir a mostarda. Ligar a TV. Dormir sozinha. Ler. Nadar. Empurrar o carrinho do supermercado. Ver um adulto chorar. Papai?

Nunca vou ouvir essa pergunta.

Ontem, a mãe da filha que não tenho levou a planta de plástico da varanda. Ela nunca recebeu flores, a não ser os lírios cor de laranja do aeroporto. Ela nunca recebeu joias, a não ser o anel com a estrelinha de sete pontas da loja de brinquedos. Ela nunca recebeu o que precisava.

A planta de plástico foi morar na esquina de um quarto vazio em outro bairro.

A filha não nasceu.

O amor virou espuma de chuveiro.

As cortinas estão fechadas, Tiago. Já deitei os porta-retratos e cobri as poltronas. Já me acostumei com a poeira e as estantes vazias. Já não quero resistir. Já não quero escrever.

Leio o teu livro nesta antessala de hospital, sem medo da morte. E sem medo de morrer, o que é bem diferente.

Há coisas muito piores.

O preço do alface é uma delas.

Se eu sair desse hospital, só vou comprar alface de plástico.

Felipe Pena é jornalista, escritor e professor da Universidade Federal Fluminense. Foi diretor da Rede Globo e comentarista do Estúdio I, na GloboNews.











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