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Blog Boatos e Fake News
por Pedro Menezes


Pedro Menezes é estudante de jornalismo na Universidade Federal Fluminense. Ama esportes, carnaval e uva passa.






Escolas de samba apostam em temas críticos para o próximo carnaval
Por: Pedro Menezes em 28/12/2018

Os desfiles do próximo ano serão palco de diversas reflexões sociais e políticas

Escolas de samba sempre se comunicaram com o seu tempo. Desde os diversos cortejos aclamando a redemocratização em meados da década de 80, até nas exaltações a Getúlio Vargas nos primórdios dos desfiles.

Com o momento conturbado vivido no Brasil, algumas agremiações utilizarão seu espaço no próximo carnaval para a promoção de reflexões sociais e políticas. Os chamados "desfiles críticos" não são novidade. No ano de 2018 algumas escolas também apostaram nessas temáticas - como a Mangueira, ironizando o corte de verbas do prefeito Marcelo Crivella; a Paraíso do Tuiuti, num forte discurso criticando as medidas impopulares do presidente Michel Temer; e a Beija-Flor, que foi campeã bradando contra a corrupção. Tais enredos, de certa forma, desencorajaram outras agremiações a adotarem esses discursos, em um fenômeno há tempos não visto no carnaval carioca.

Ala “Manifestoches” da Paraíso do Tuiuti em 2018, que criticava os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff - Brazil Photo Press/Folhapress

Para 2019 teremos uma nova “safra” de temas críticos e combativos. Confira os que mais se destacam:



“Histórias para ninar gente grande”, Estação Primeira de Mangueira:

O enredo idealizado pelo carnavalesco Leandro Vieira rendeu um samba que com certeza é um dos mais aguardados para o carnaval 2019. A obra passeia pelos fatos históricos mais reproduzidos na sociedade, como a chegada dos portugueses e a Lei Áurea, porém os conta de uma maneira menos conhecida. Exalta heróis esquecidos, como Dandara dos Palmares, Cariri e o Dragão do Mar, além de também criticar essas tais versões mais famosas da história. Também homenageia a vereadora assassinada Marielle Franco, traçando um paralelo com a atualidade. Confira a letra do samba de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino:

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
Tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasil que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde- e- rosa as multidões



"O Salvador da Pátria", Paraíso do Tuiuti

Também apostando na crítica pelo segundo ano seguido, o carnavalesco Jack Vasconcelos prepara um carnaval que contará a história do bode “Ioiô”, caprino popular em Fortaleza, que chegou a ser eleito vereador no início do século XX. Chama atenção no pedido pela consciência do voto, além de apontar vários aspectos presentes na época que são facilmente identificáveis nos dias de hoje. Confira a letra do samba de Moacyr Luz, Cláudio Russo, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir:

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue

Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar

Passava o dia ruminando poesia
Batendo cascos no calor dos mafuás
Bafo de bode perfumando a boemia
Levou no colo Iracema até o cais
Com luxo não! Chão de capim!
Nasceu muderna Fortaleza pro bichim

Pega na viola, diz um verso pra iô iô
O salvador! O salvador! (da pátria)

Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor

Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil

O meu bode tem cabelo na venta
O Tuiuti me representa
Meu Paraíso escolheu o Ceará
Vou bodejar lá iá lá iá



“E o samba sambou…”, São Clemente

Uma das escolas que mais apostou nas críticas em sua história decidiu reeditar um samba enredo de sua discografia. Trata-se de uma bela obra de 1990, que na época discordava do modelo de carnaval existente. Para a escola, a situação de lá pra cá não melhorou, pelo contrário, os aspectos retratados no samba estão ainda mais escancarados. O samba, composto por Helinho 107, Mais Velho, Chocolate e Nino crítica o alto preço do ingresso para os desfiles, que afastam as camadas mais populares da festa, a espetacularização das escolas de samba como grandes shows “hollywoodianos”, além da comercialização dos profissionais da festa, que são demitidos e contratados num fluxo semelhante treinadores de clubes de futebol. Do lado das críticas atuais ainda será incluído o protesto às ”viradas de mesa” no carnaval - mudanças abruptas de regulamento para a suposta ”proteção” de escolas A ou B - além da desaprovação de rainhas de baterias que compram o posto, ou seja, “pagam pra sambar”. Confira a letra do samba:

Vejam só!
O jeito que o samba ficou e sambou
Nosso povão ficou fora da jogada
Nem lugar na arquibancada
Ele tem mais pra ficar
Abram espaço nesta pista
E por favor não insistam
Em saber quem vem aí
O mestre-sala foi parar em outra escola
Carregado por cartolas
Do poder de quem dá mais
E o puxador vendeu seu passe novamente
Quem diria, minha gente
Vejam o que o dinheiro faz

É fantástico!
Virou Hollywood isso aqui (isso aqui)
Luzes, câmeras e som
Mil artistas na Sapucaí

Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
Rambo-sitores, mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão

E o samba vai perdendo a tradição

Que saudade
Da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas
Onde todos curtiram o verdadeiro samba



“Eu vi Deus, ela é negra!”, União do Parque Curicica

Caminhando para os grupos inferiores, encontramos o enredo da simpática escola do Grupo B (terceira divisão do carnaval) que homenageará a luta de mulheres negras, denunciando a discriminação, a opressão, a violência e o “patriarcado hostil”, clamando por liberdade, igualdade social, paz, reconhecimento e representatividade. O samba também homenageia Marielle Franco no trecho “belas, negras, Presentes”. O enredo desenvolvido por Wagner Gonçalves foi contado desta forma pelos compositores Rafael Gigante, Vinícius Ferreira, Pitimbú, Alexandre Alegria, André do Posto 7 e Jefferson Oliveira:

Oh mãe…
Sua bênção por favor
Pro axé do meu tambor
Não faltar na romaria
Tem “Rosário” meu andor
Sua vida me inspirou
A lutar no dia dia
Negra é a luz da divindade
Ventre do amor, maternidade
Planta sorrisos no solo da emoção
Me embala “audaciosa” inspiração

Eu vi Deus! Ela é negra!
O doce mais puro do favo da vida
Porto seguro da nossa união
Guerreira que nunca se dá por vencida

Sim, toda mulher
O que bem quer sabe de cor
Desde menina ao mundo ensina
A ser melhor
Rompe os grilhões sociais
Estuda este nosso Brasil
Defende os seus ideais
Do patriarcado hostil
Voz que dá vez a um povo
Ninguém vai calar nossa “gente”
Belas Negras presentes!

Eu sou aliança!
Meu samba diz que a esperança
“Ela não morre, se multiplica!”
Na União do Parque Curicica











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